Repensando a experiência psiquiátrica: narrativas de vida, insegurança ontológica e produção colaborativa de conhecimento na investigação em saúde mental
Este artigo examina a forma como as experiências psiquiátricas moldam as narrativas de vida, propondo simultaneamente abordagens metodológicas inovadoras para a investigação em saúde mental. Com base em quatro estudos de caso de indivíduos diagnosticados com perturbação bipolar, a investigação revela inicialmente como as histórias de vida dos utentes dos serviços psiquiátricos se tornam frequentemente «patografias» — narrativas organizadas predominantemente em torno da doença e das intervenções médicas. No entanto, através de uma transição para métodos de investigação colaborativos, os participantes ultrapassaram estes relatos iniciais centrados na doença para desenvolverem compreensões mais complexas das suas experiências. A análise recorre ao conceito de insegurança ontológica de R.D. Laing e ao quadro de ontologia histórica de Michel Foucault para examinar como as intervenções psiquiátricas afetam o sentido de realidade, identidade e tempo dos indivíduos. Os resultados demonstram como o diálogo colaborativo pode transformar experiências ontologicamente inseguras em bases partilhadas para gerar novos significados e perspetivas críticas sobre os sistemas psiquiátricos. Esta abordagem aborda desafios metodológicos fundamentais na investigação em saúde mental, contribuindo simultaneamente para os debates sobre o conhecimento experiencial e a democratização da produção de conhecimento em saúde mental. O estudo sugere que, embora as narrativas biográficas constituam uma base valiosa para a investigação, o seu maior potencial reside na criação de oportunidades para a análise e a crítica colaborativas, que capacitam os indivíduos a desenvolver uma compreensão mais restauradora e emancipadora das suas experiências.